Mulher contemplativa sentada em um café, olhando pela janela

Entre o Sim ao Outro e o Não a Si

o preço de não sustentar o próprio desejo — por Hulda de Miranda

Se hoje alguém te perguntasse: como você está se sentindo? Melhor do que há alguns anos ou exatamente do mesmo jeito? — o que você responderia?

Talvez a resposta venha acompanhada de um incômodo persistente: a sensação de continuar no mesmo lugar, a insegurança que insiste, a ansiedade que não silencia, a crença de não merecer ser feliz.

A dificuldade de dizer "não" aos outros, enquanto segue dizendo "não" para si mesma. O medo de não dar conta — do trabalho, da família, dos relacionamentos — e, junto com ele, a culpa e a raiva por não conseguir estabelecer limites.

Na perspectiva de Jacques Lacan, essa experiência não é um defeito pessoal, mas expressão de uma estrutura: a falta é constitutiva do sujeito.

Isso significa que há, em cada um de nós, um vazio estrutural — algo que não será completamente preenchido. E é justamente essa falta que nos move, que organiza o desejo e sustenta quem somos.

O sofrimento começa quando tentamos tamponar essa falta vivendo para o Outro — buscando reconhecimento, aprovação, pertencimento — ao custo de nos afastarmos de nós mesmos.

É nesse movimento que você diz "sim" para os outros e "não" para si, acreditando que, assim, finalmente será suficiente.

Contudo, é imprescindível compreender algo ainda mais profundo: aquilo que você sente não nasce apenas das situações que vive, mas da forma como sua história foi sendo escrita na linguagem. Como aponta Lacan, o desejo não é algo totalmente consciente — ele se constrói no campo do Outro, nas expectativas, nas palavras e nos lugares que você foi ocupando ao longo da vida.

Por isso, muitas vezes, você se vê tentando corresponder, agradar, ser aceita… como se precisasse garantir seu valor para alguém. Sem perceber, vai se afastando de quem, de fato, você é.

Mas a falta não é algo a ser eliminada — ela precisa ser reconhecida e simbolizada. Dizer "sim" para si mesma não é tornar-se completa, é assumir a própria falta sem se anular diante do Outro.

É nesse ponto que algo pode se transformar: não quando você tenta ser perfeita, mas quando sustenta, com mais verdade, o seu próprio desejo.

O autoconhecimento, então, não é um caminho
para preencher vazios —
é o que permite habitar a própria falta
sem se perder de si mesma.

Referências

DOR, Joël. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação (1958–1959). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2016.

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