Mulher ajoelhada em um quarto antigo, cercada por memórias e sensações difusas

Ansiedade: grito silencioso de que algo precisa mudar

por Hulda de Miranda

Você não é a sua ansiedade. Você existe antes dela, durante ela e, se tudo permanecer como está, continuará existindo depois dela.

É preciso compreender que a ansiedade, assim como os demais estados emocionais, não é boa nem ruim. Falar sobre a ansiedade é o primeiro passo para encontrar equilíbrio.

Na perspectiva psicanalítica, a ansiedade tem origem em conflitos inconscientes reprimidos e funciona como um alerta do ego diante de um perigo — real ou imaginário —, desencadeando respostas defensivas.

Tomemos como exemplo uma jovem estudante que não consegue apresentar trabalhos em sala de aula, pois vivencia crises de ansiedade ao falar em público. Nesse caso, o ego percebe um perigo interno: o desejo inconsciente de se expor ou de ser reconhecida, reprimido pelo medo de crítica ou punição.

A ansiedade, então, surge como sinal de alarme. O ego teme que esse desejo venha à tona e entre em conflito com o superego, evocando sentimentos de culpa ou vergonha. Em Sigmund Freud, a ansiedade opera como uma defesa frente aos desejos reprimidos. Ao voltar-se para a interpretação do passado e dos conflitos inconscientes, a jovem pode começar a compreender o verdadeiro objeto de sua ansiedade e a direção para a qual ela está sendo deslocada.

Freud distingue três formas de ansiedade: a realista, diante de perigos externos; a neurótica, ligada aos impulsos inconscientes; e a moral, associada ao superego e à culpa.

Quando o ego não consegue lidar com essas forças internas, a ansiedade emerge como um verdadeiro "alarme psíquico".

Muitas vezes, a ansiedade aparece quando conteúdos reprimidos tentam alcançar a consciência. Em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, essa experiência é retratada nos acontecimentos da vida de Macabéa:

"Ela não sabia o que pensava e pensava com o corpo."

Aqui, a ansiedade surge como uma sensação difusa e corporal, ainda sem elaboração psíquica.

Em outro momento: "Tinha medo de não ser aceita e sorria para todos." — expressão de uma ansiedade social marcada pela necessidade de agradar para evitar rejeição. E ainda: "Sentia-se sempre um pouco culpada sem saber de quê." — uma ansiedade moral difusa, ligada a um sentimento de culpa sem objeto definido.

Macabéa encarna uma ansiedade silenciosa. Sua vivência revela fragilidade psíquica e uma precariedade na construção de si, apontando para a ansiedade como sintoma, mas também como expressão da própria condição humana diante da falta de sentido.

Clarice Lispector, sem recorrer ao vocabulário psicanalítico, traduz literariamente aquilo que Freud teorizou: a ansiedade como um alarme constante da existência.

Referências

FREUD, Sigmund. Inibições, sintomas e ansiedade. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

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